Linhagem de Estrutura x Trabalho
O Pastor Alemão é, sem sombra de dúvida, a mais versátil e popular raça canina do mundo. Ele excede, como cão de trabalho, em diversas atividades, oferece companhia e proteção a muitas famílias e compete em alto nível em eventos de estrutura (beleza) e performance (adestramento).
A raça Pastor Alemão foi criada pelo capitão do exército alemão Max von Stephanitz, em 1899, quando fundou, em abril se 1899, juntamente com seu amigo Artur Meyer e outros nove membros, a "Verein für Deutsche Schäferhunde" (Sociedade do Pastor Alemão), conhecida pelos alemães e criadores em todo o mundo, como “SV", instituição que dirigiu com todo o rigor e severidade até 1935.
O Capitão von Stephanitz tinha um interesse especial e grande conhecimento em fisiologia, anatomia, historia natural e evolução dos mamíferos, teorias de cruzamentos e acasalamento animal bem como da ramificação e características das raças caninas. Ele era um oficial da cavalaria apenas por razões sociais.
Não foi acidentalmente que ele baseou sua criação inicial em cães pastores, ao invés de cães de guarda, ou cães de guerra ou ataque, ou dos cães de exposição Ingleses que eram os grupos de cães predominantes na Alemanha naquela época.
Ele sabia que só a inteligência de um cão pastor poderia gerar um perfeito cão de companhia e trabalho com todas as qualidades desejadas. O objetivo inicial era a criação de uma raça com múltiplas habilidades, que fosse capaz de pastorear, proteger a propriedade de invasores, proteger a criação de predadores, proteger seu dono e a família e ainda chegar ao final do dia e brincar calmamente com a família.
Ele logo escreveu o primeiro padrão para a Raça Pastor Alemão, com ênfase na “utilidade e inteligência”. Esse padrão continha a frase: “Uma boa aparência é desejada, mas não se pode colocar a habilidade de trabalho do cão em questão!”. E para ter certeza de não ser mal compreendido, cunhou a frase: “Um cão Pastor Alemão é um Cão de Trabalho ou não é um Pastor Alemão” que ficou mundialmente famosa. Aplicando essas regras com “ferro e fogo” durante seu longo mandato à frente da SV, o Pator Alemão tornou-se o Cão de Trabalho mais útil e difundido do mundo, como cão para serviços policiais e militares, cão de busca e salvamento, proteção pessoal, guia de cegos, cão de guarda e muitas outras utilidades.
Durante a segunda guerra mundial, o Pastor Alemão teve a infelicidade de ser dizimado aos milhares, pois os militares confiscavam qualquer cão que encontravam, independente do apego familiar ou valor genético, gerando filhotes aleijados, raquíticos e doentes devido à desnutrição generalizada. Os poucos Pastores Alemães que sobreviveram à guerra eram fracos e magros. Os dois mais importantes sobreviventes foram "Rolf vom Osnabrücker-Land" e "Axel von der Deininghauserheide" que, juntos com "Hein vom Richterbach", reconstruíram a raça Pastor Alemão na Alemanha depois da segunda guerra mundial.
Surgiu, então, na antiga Alemanha Ocidental, uma nova tendência especialmente comercial de orientar boa parte da criação de Pastor Alemão segundo um padrão de cão mais bonito, com características morfológicas e pelagem predominando sobre suas características psicológicas, temperamento e habilidades, muito bem aceito pelo marcado norte americano. Este mercado, no pós-guerra, tornou-se, então, uma grande fonte de renda para os criadores alemães e a grande maioria dos cães Pastores Alemães produzidos nos últimos 50-60 anos foi da linhagem de estrutura, hoje predominante em todo o mundo.
Como o critério principal de seleção (escolha de reprodutores) dos cães de estrutura é a morfologia, pelagem e movimentação em pista, o temperamento é deixado em segundo plano, respeitando-se apenas o mínimo exigido no padrão da raça. Por outro lado, nos cães de trabalho, seguindo o princípio da criação da raça, a seleção é prioritariamente baseada no temperamento e habilidades do animal e a morfologia fica em segundo plano, respeitando apenas o mínimo exigido no padrão da raça.
Após 50-60 anos de criação com dois critérios de seleção com objetivos tão diferentes, criou duas linhagens de sangue também distintas, embora obedecendo o padrão oficial da raça.
O extraordinário sucesso mundial do Pastor Alemão é prova irrefutável de que as teorias do Capitão von Stephanitz estavam absolutamente corretas. Apesar disso, existem hoje, na Europa, uma clara subdivisão da raça nessas duas linhas de sangue diferenciadas.
Outra divisão importante da raça, encontra-se na América do Norte, onde Estados Unidos e Canadá adotaram durante a segunda guerra mundial um padrão diferente do publicado pela SV, mas que, apesar do grande contingente de cães registrados, não se propagou pelo mundo, nem é muito conhecido no Brasil.
Graças à rigorosa imposição do padrão da raça pela SV, as duas linhagens alemãs do Pastor Alemão (Estrutura e Trabalho) são plenamente compatíveis, embora complementares, sendo o cruzamento entre elas eventualmente praticado por ambos os lados, visando melhorar o temperamento em cães de estrutura ou melhorar a morfologia em cães de trabalho.
Já, no Leste Europeu, antigamente pertencente ao Bloco Soviético, praticamente isolado política, comercial e socialmente do restante da Europa, onde a criação de Cães Pastores Alemães já estava bastante difundida antes da Segunda Guerra, deu continuidade ao desenvolvimento da raça, porém como Cão de Trabalho, seguindo mais de perto o padrão original da raça, em especial em atividades policiais.
Canil Comary